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Eleodoro Carlos de Almeida
Conceituamos Prolapso Total do Reto ou Procidência Retal como sendo a exteriorização transanal de todas as camadas do reto, no Prolapso Parcial somente a mucosa se exterioriza.
O Prolapso retal consegue produzir um desconforto dúbio atingindo o paciente e o médico ao mesmo tempo. No primeiro produz uma sensação de insegurança e isolamento, devido a alta incidência de incontinência fecal que o acompanha. No médico, a frustração de saber que, embora estejamos entrando no terceiro milênio, ainda deparamos com resultados cirúrgicos que estão longe da qualidade que tanto almejamos. O número de técnicas na literatura é enorme, ultrapassa uma centena e muitas não chegaram a sair do seu nascedouro.
Historicamente, esta patologia foi relatada, pela primeira vez, 1500 antes de Cristo, em Ebers Papyrus.
Com toda esta longa trajetória através dos tempos, ainda é um assunto controvertido, tanto na sua etipatogenia quanto no seu tratamento.
Atualmente a etiopatogenia está alicerada em fatores anatômicos e fisiológicos. Acredita-se que o reto se mantém na sua posição normal graças a um suporte passivo constituído, principalmente, pelo mesorreto, o peritôneo pélvico e a sua posição correta sobre a concavidade sacrococcigeana. Somam-se também, os Fáscias de Waldeyer, Denovillier, o diafragma urogenital e fundos de saco peritoneais.
O suporte ativo é proporcionado, principalmente, pelos músculos elevadores do ânus e esfíncteres anais, sendo a alça do pubo-retal a mais importante pela formação do ângulo Ano-retal que, juntamente com a concavidade sacrococcigeana, impede que a resultante de forças durante o esforço defecatório, e a posição ostostática se façam sentir com maior intensidade sobre o canal anal.
Quanto a etiopatogenia, existem várias teorias, no entanto, as que mais se destacaram são: a teoria da hérnia por deslizamento, (Quenú, Durval e Noschovitz); a da alteração na fixação do reto, (pemberton, Muir, Ripstein e Stolkes); a do assoalho pélvico descendente (Portes e outros); a da invaginação e intussuscepção, (Shelman, Broden) e a das lesões traumáticas graves.
A complexidade da doença e a multiplicidade de técnicas existentes exigem do cirurgião muito bom senso e experiência em, no mínimo, três técnicas abdominais e três perineais. Fruequentemente, temos que associar técnicas perineais e abdominais para atingirmos melhor a etipatogenia da doença.
Os procedimentos perineais mais praticados no momento são: as cerclagens de Thiersh (1891) E Notaras (1973), a mucosectomia com plicatura da parede do prolapso (Delorme 1900) a Retossigmoidectomia perineal, Atemeier (1971) e o reapro pós-anal posterior (Parks 1966).
As técnicas abdominais mais em evidência são: a sacropromontofixação do reto, a mobilização e a fixação do reto com telas (Marlex-Ivalon-Teflon), como nas operações de Notaras e Ripstein, e a ressecção anterior do retosigmóide (Muir - 1955).
Todos esses procedimentos poderão estar associados a horizonrtalização e obliteração do fundo de saco Douglas, (Moschcowitz, 1912) e as várias pexias tais como: Histeropexias, etc., sendo a plicadura do músculo elevador do ânus por via abdominal (Roscoe Grahan) muito difundida por Goligher em 1958.
O cirurgião deverá ter em mente os seguintes princípios para a cirurgia do Prolapso retal:
Geralmente, usa-se a combinação dos recursos acima expostos. No nosso meio o Professor Horácio Carrapatoso sugeria sua técnica que consiste na fixação do reto ao ligamento sacroilíaco anterior esquerdo.
Como podemos deduzir, não existe técnica padrão, e sim, uma mistura de recursos abdominais e perineais para cada caso específico.
O material sintético mais usado na fixação do reto é tela de Marlex, Teflon e Ivalon (Polyvinylálcool). Há relatos de que Ivalon pode ser cancerígeno e que Duramater já foi preconizado para tal finalidade.
Para ilustrar a nossa exposição, gostaríamos de mostar uma modesta experiência pessoal constante de 31 pacientes operados nos últimos doze anos, sendo 16 procediemntos abdominais e 15 perineais. Predominância do sexo feminino (70%), idade média 58 anos, seguimento de 12 meses.
No Quadro 1, mostramos os procedimentos únicos ou associados realizados em 16 pacientes:
| Abdominais únicas ou associadas Dixon + plicaturas + hernioplatias perineal, inguinal | |
|---|---|
| Esq e incisional | 1 |
| Doxon + plicaturas | 2 |
| Ripstein + plicaturas | 5 |
| Ripstein + plicaturas + histeropexia + Parks | 3 |
| Ripstein + plicaturas + Thiersch | 2 |
| Ripstein + plicaturas +esfincteroplastia anterior | 2 |
| Sacropromontofixação do reto | 1 |
| Total | 16 |
No quadro 2, registramos os procedimentos perineias realizados em 15 pacientes:
| Perineias | |
|---|---|
| Retossigmoidectomia perineal | 2 |
| Thiersch | 5 |
| Delorme | 4 |
| Notaras | 1 |
| Parks | 2 |
| Parks + Histerectomia vaginal | 1 |
| Total | 15 |
No quadro 3, observamos as principais complicações nos pacientes submetidos aos procedimentos abdominais (13) e nos procedimentos perineais(22):
Esse aparente excesso de complicações como as infecções, os fecalomas e as estenoses, foi resolvido facilmente no próprio ambulatório ou consultório. Dos cinco casos de prolapso mucoso parcial, no pós operatório, três foram resolvidos com ligadura elástica e dois foram reoperados.
A incontinência geralmente leve e moderada (gases e líquidos) foi orientada clinicamente, exceto num paciente que submeteu-se ao reparo pós-anal (Parks), e o outro com obstrução, após a operação de Ripstein, foi submetido a retossigmoidectomia abdominal com retirada da tela. As seis recidivas foram reoperadas (Thiersch 03 - Notaras 01), nas abdominais, uma foi reoperada com ressecção anterior, e a outra por via perineal (Delorme).
| Procedimentos | Abdominais | Perineais | ||
|---|---|---|---|---|
| Complicações | Número | Porcentagem | Número | Porcentagem |
| Recidiva | 2 | 12,50 | 4 | 26,66 |
| Obstrução | 1 | 6,25 | 0 | 0,00 |
| Fecaloma | 2 | 12,50 | 4 | 26,66 |
| Prolapso mucoso | 2 | 12,50 | 2 | 20,00 |
| Incontinência | 3 | 18,75 | 6 | 40,00 |
| Estenose | 1 | 6,25 | 2 | 13,33 |
| Infecção | 2 | 12,50 | 3 | 20,00 |
| Total | 13 | 22 | ||
Concluímos que o tratamento do prolapso retal entrará no terceiro milênio com resultado longe da qualidade desejada, ainda bastante controvertido. Talvez com o emprego mais corriqueiro da fisiologia anorretal (manometria, aletromiografia, estudo da latência do nervo pudendo, defecografia e ultrassonografia endorretal) poderemos fazer as nossas combinações técnicas perineais e abdominais mais corretas, com melhor base científica.
Acreditamos que a videocirurgia em mãos experientes tende a ocupar um bom espaço no tratamento desta patologia.
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